
ilustração Bertrand Costilhes
Um autor não deve atrapalhar a vida dos leitores ao tratar da própria obra, entretanto falar a respeito da motivação para a escrita pode não ser um ato egoísta. O que me levou a escrever um livro de contos que focaliza mudanças nas vidas de personagens comuns foram duas descobertas. (Acerba Dor, 2017)
A primeira, a descoberta literária da obra de Ernesto Sábato, cientista argentino que atuou como pesquisador na França antes de tornar-se um dos maiores escritores da América Latina. Sábato preferiu a desordem da literatura à ordem da ciência tal como relata na obra Nós e o Universo:
“ A ciência foi como um companheiro de viagem, durante um trecho, mas já ficou para trás. No entanto, quando nostalgicamente volto a cabeça, posso ver algumas das altas torres que divisei em minha adolescência e que me atraíram com sua beleza alheia aos vícios carnais. Logo desaparecerão do meu horizonte e só restará a lembrança. Muitos pensarão que isto é uma traição à amizade, quando é, na verdade, fidelidade à minha condição humana. De todas as formas, reivindico o mérito de abandonar esta cidade de torres – onde reina a segurança e a ordem – em busca de um continente cheio de perigos, onde domina a conjetura. “
A segunda foi a descoberta do fenômeno biológico que ocorre na vida de insetos que em certo momento da vida trocam de pele, que é representada pelo exoesqueleto, a carapaça que contém e protege o corpo do inseto. Quando o corpo cresce, mas não a carapaça, os insetos abandonam a proteção antiga enquanto uma nova carapaça amadurece. Sinais do fenômeno podem ser observados quando encontramos a casca vazia de uma cigarra agarrada ao tronco de uma árvore. A cigarra abandonou as amarras da pele antiga para poder crescer.
Sabem os entomologistas que a ecdise – nome dado ao fenômeno – é um período crítico para a vida do inseto uma vez que a sua nova proteção ainda não existe e a antiga não lhe serve mais. Neste período o inseto fica desprotegido, sujeito aos ataques dos predadores.
Não são os fenômenos entomológicos que me interessam, mas as ecdises do homem refletidas nas obras literárias, mudanças dos personagens em um romance, novela ou conto. Ecdises, nas obras literárias, capturam a atenção do leitor. Senão vejamos. Kafka começa assim a primeira frase do livro Metamorfose.
“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. …. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos. – O que aconteceu comigo? – pensou”.
Ou em Guimarães Rosa quando Riobaldo narra:
“O senhor, mire, veja. O mais importante e bonito do mundo é isto: Que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. ”
Aparentemente não existe literatura que não trate de mudanças sem o que, o texto seria enfadonho. Podem ser mudanças que não se concretizam, ou ainda aquelas que o critério de verossimilhança sugeriria como infactíveis, mas que se realizam. A obra literária captura o leitor que, na viagem da leitura, muda com o personagem que o encantou, e encantou porque mudou, trocou de pele em seu lugar.