Ainda que não exista nada de novo sob o sol, ideias antigas ganham fôlego quando ressuscitadas pelos, assim chamados, formadores de opinião. É o que ocorre quando se apresenta como novo os conceitos de cohousing e coworking, definidos como o uso de espaços para viver ou trabalhar compartilhando equipamentos e áreas de uso comum. É interminável a capacidade humana para adotar nomes novos – de preferência em Inglês – para velhos conceitos. Tratada como fenômeno inovador, a prática de dividir espaços para viver e trabalhar diluindo custos por meio do compartilhamento, nada tem de inovadora.
O compartilhamento pode ser encontrado nos índios brasileiros que habitam imensas ocas onde a vida coletiva promove segurança, acolhimento, cuidado compartilhado das crianças e idosos, além do uso coletivo dos ativos onde todos investiram o tempo dedicado ao trabalho de construção. Lembrei-me dos cortiços que existem na cidade de São Paulo e que adquirem cores específicas em diferentes períodos de tempo. Assim, o bairro do Bixiga e o Bom Retiro da minha infância tiveram – e ainda têm – espaços compartilhados por levas de imigrantes movidos pelo incentivo de conjugar pequenos ambientes para viver, compartilhar custos, obedecendo regras para garantir o convívio, nem sempre harmônico, diga-se de passagem.
Cohousing me fez recordar outras formas românticas de convívio como as pensões e as repúblicas. As primeiras foram comuns na organização da sociedade brasileira. Relata Pedro Nava no seu “Baú de Ossos”:
Quando meu pai deixou Juiz de Fora e mudou-se para o Rio veio morar com suas irmãs …. com Alice e Antonio Salles, em uma pensão à Rua das Marrecas 24.
Foi o tempo em que Nava reconhecia a cidade que o acolheria e onde se formaria como médico e escritor. A mesma cidade onde morreu de forma trágica.
Ao abrir outro escaninho de recordações encontrei um local que foi especial para a minha formação como indivíduo. A Zonzeira, uma república de estudantes que habitei na cidade de Piracicaba. Comuns nas comunidades universitárias, as repúblicas são exemplos do compartilhamento de ativos sob regras de convívio. Foi onde eu passei quatro anos da minha vida como estudante de ciências agrárias, convivendo com cerca de nove jovens com os humores juvenis explodindo, que dividiam quarto, banheiro, cozinha, sala, telefone, campinho para a pelada diária e a mesa para jogar truco posta na calçada da Rua João Sampaio. Quem colocava ordem na casa era o Valdir, um jovem que se ofereceu para trabalhar nos cuidados da casa. Rejeitado no mercado de trabalho pela sua opção sexual, Valdir foi um excelente apoio com quem muito aprendemos sobre o convívio humano. Como estudantes, nós dividimos mais do que o espaço, dividiamos experiências. Nossas histórias de vida seguiram caminhos diferentes, entretanto o compartilhamento vivenciado nos permitiu criar uma identidade que dá base ao convívio que mantemos até hoje. A socialização que experimentei como um jovem urbano, paulistano, me permitiu aprender com as experiências dos colegas vindos de outros cantos do Brasil. As regras de convívio eram definidas e muitas vezes ultrapassadas, o que por óbvio, causava conflitos. Nós ainda ignorávamos que tais conflitos fariam parte do aprendizado para a vida que teríamos pela frente.
Cohousing, coliving, regras de convívio, compartilhamento de despesas, uso comum de equipamentos, formas de vida de baixo custo. Nada de novo debaixo do sol, como dito no Eclesiastes, apenas novos nomes para bodes velhos.