The Vegetarian ou A Transgressora

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AGORA PRÊMIO NOBEL

Com o lançamento do livro de Han Kang no Brasil em 2018 pela Editora Todavia, traduzido por Mauricio S. Dias, e sendo escolhida para o Nobel de literatura em 2024, resolvi reblogar o texto.

Eu conheci Han em um encontro literário na Europa. Ela falou para um público pequeno, falou em Coreano. 

Han Kang é uma escritora Sul Coreana cuja obra chegou ao ocidente com a tradução do livro “The Vegetarian”.  Originalmente publicado em 2007 no seu país, a obra lhe rendeu o Man Booker Prize em 2016.  A autora tem estilo pessoal que transcende o que se pode esperar da escrita contemporânea. Ela nos instiga e conduz aos limites do comportamento humano.

O livro aborda o direito de escolha e chega ao extremo da escolha pela vida. Como indaga Yeong-hye, a personagem central da novela, “por que assumir que morrer é ruim?”  A personagem trata do direito sobre o seu ser integral, primeiro sobre o corpo e sexualidade, depois a metáfora da recusa de comer carne ou mesmo de ingerir qualquer alimento, terceiro o direito sobre a mente que abandona qualquer laço com a realidade ao redor preferindo transitar pelo mundo do sonho. A personagem transgride seja na vida cotidiana com o marido, seja no estúdio onde se deixa fotografar nua e com o corpo decorado por pinturas feitas pelo cunhado, seja no relacionamento com a irmã e com o pai que irão força-la a se alimentar.

O ponto de partida é a vida ordinária de mulher submissa ao marido, funcionário exemplar de uma empresa tradicional. Ela transgride o relacionamento quando repentinamente decide não mais alimentar-se de carne. Perguntada pela razão, vem a resposta, que se repetirá ao longo da trajetória, “eu tive um sonho.” A transgressão social chega ao limite quando Yeong  fere a etiqueta no jantar com os diretores da empresa e respectivas esposas. Vestia uma blusa que permitia transparecer os seus seios, que se fazem presentes ao longo de toda a narrativa. Não está trajada conforme esperado e recusa os alimentos à base de carne. Um escândalo!  A voz do esposo compõe a primeira parte do relato transgressor. A voz do cunhado, artista obcecado pelo corpo de Yeong- hye, compõe a segunda parte da narrativa, e a voz da irmã acompanha a fase crítica de afastamento da personagem da realidade, primeiro em um asilo de loucos e depois no hospital geral de Seul.

Yeong-hye é violada sexualmente, violada ao obrigarem-na a ingerir carne, violada pelas agulhas dos médicos nos hospitais, violada pelo cotidiano de mulher submissa à carreira do marido, violada quando a sua vontade não é respeitada por ser incompreensível. A metáfora da dieta vegetariana radical é consistente com a retomada do ser integral, de tal modo que o paulatino afastamento da vida passa pela desobediência ao pai e ao marido e pela supressão da libido e de qualquer conexão com a vida. Ela deseja transformar-se em um vegetal. Yeong-hye é pura transgressão.

 A narrativa é perfurante como o instrumento pontiagudo com o qual ela tenta o suicídio em resposta à imposição da vontade paterna. Um livro que nos faz pensar nas amarras às quais somos submetidos e no nosso comportamento moldado àquilo que de nós se espera.

2 comentários sobre “The Vegetarian ou A Transgressora

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