Um Autor: Menis Koumandareas

koumandareas

Sempre gostei de fotografar barbearias. Talvez um atavismo explicado pela minha hereditária calvície – com a qual nunca disputei um milímetro. Ela tem vida própria e eu nunca interferi no seu lento e inevitável progresso. Resolvi compartilhar as fotos das barbearias que tirei em São João Del Rei, Diamantina, Roma, Praga e em outras cidades. Foi o bastante para mexer com os brios do meu amigo Kostas Karantininis, grego obviamente, que vive na Dinamarca. Kostas enigmaticamente pediu o meu endereço postal.
Semanas depois recebi um livro do escritor grego Menis Koumandareas que traz na capa a foto de uma barbearia em Atenas e cujo título replica uma frase de Pablo Neruda:
“El olor de las peluquerias me hace llolar a gritos”.
A edição é uma tradução para o Inglês do livro escrito originalmente em Grego, publicado em 1997. O título em Inglês, “Their smell makes me want to cry” foi publicado em 2004 pelo Centro de Estudos Bizantinos, Otomanos e Grego Moderno da Universidade de Birmingham. O autor publicou 24 novelas, livros de contos e traduziu para o Grego autores como H. Hesse, W. Faulkner, H. Melville, E. Hemingway e Scott Fitzgerald.
Sob protesto dos livros que aguardam pacientemente pela leitura na minha estante, passei Menis na frente dos demais e li cada um dos nove contos com o passo lento do tempo que sobrevive em algumas livrarias, cafés e nas barbearias. Em cada história, Eurípides o barbeiro, recebe clientes que se miram no espelho da barbearia, se despem e destrambelham a relatar as mais íntimas experiências. Atenas é o cenário, uma cidade que vive na memória coletiva e que sofre mudanças como todas as metrópoles do mundo. Eurípides ouve muito e pouco fala. Compartilha suas ponderações com o leitor criando uma atmosfera de cumplicidade. A barbearia com o espelho defronte da cadeira de barbeiro, oferece o quadro para o desenrolar de estórias de morte, desejo, vida marginal, de taras que de tão humanas não espantam o leitor, são verossímeis. Os relatos conexos me fizeram lembrar o Livro das Mil e uma Noites. Os contos são enlaçados pelo cenário, pela presença de Eurípides e pelo espelho a refletir os dramas humanos.
Em um dos contos, Eurípides ao ouvir o relato de um garoto de programa, esboça um sorriso. Indagado pelo cliente pela razão da reação, explica que ouvira estória parecida de outro cliente. Referiu-se ao personagem de outro conto defronte do mesmo espelho. A conexão intencional dos relatos promove uma densa rede de sensações que mesclam compaixão, culpa, doença, desejos ilícitos.
A leitura pausada que fiz resultou da profundidade dos relatos. Atenas poderia ser São Paulo, Nova Iorque, Tóquio. Eu precisava respirar entre um e outro clientes à frente do espelho. Ao concluir a leitura de pronto quis conhecer mais sobre Menis Koumandareas.
Existem traduções para o português? Achei uma obra em espanhol. Quem é o autor apresentado na orelha do livro cuja tradução do grego para o inglês foi publicada em 2004?
Fui buscar a resposta no Google que, sem respeitar a minha alegria por ter encontrado um autor extraordinário, informou com frieza indesculpável sua trágica morte ocorrida em 2014. O autor foi assassinado no seu apartamento em Atenas. Consta que Menis frequentava um café na proximidade do apartamento onde morava, estava com um amigo quando se desculpou e saiu às pressas pouco antes da meia noite dizendo que retornaria em breve. Com a demora, o amigo foi ver o que ocorrera, encontrou o corpo possivelmente asfixiado e o local revirado por algum assaltante. Nenhuma referência conclusiva sobre a causa da morte foi encontrada, a imprensa à época explorou o seu ativismo político e a participação em manifestações antirracistas.
Não quis ler os outros textos que o Google encontrou, senti como se tivesse perdido um novo amigo a quem acabara de conhecer. Resolvi enviar uma mensagem para Kostas que me contou a sua versão.
“ Sim Decio, Menis foi assassinado, possivelmente por um garoto de programa. Ele levava uma vida dupla, era homossexual e tinha 83 anos. ”
Não sei se é um fato verdadeiro pois a imprensa da época não fez esta conexão, é comum que a imprensa tente blindar a imagem de personalidades como fez com Pedro Nava no Brasil, que se suicidou ao sofrer a chantagem de um garoto de programa, o que revelaria a sua vida dupla. Perdemos o maior memorialista que conheço na língua portuguesa. Penso que a Grécia perdeu um grande escritor do realismo social moderno. Pensei no drama de Menis Koumandareas ao deixar o café de forma apressada. Qual o fato o teria motivado a subir ao apartamento?
Não sei responder, mas sei que nunca mais verei uma barbearia da mesma maneira.

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