Toponímias e outros nomes.
Existem nomes que chamam a atenção, mas nenhum me causou maior prazer estético do que Póvoa do Varzim, cidade entre o Minho e o Douro, onde nasceu o meu amigo Américo Craveiro. Fico a imaginar a sensação de ser questionado, “onde você nasceu?”, e ouvir uma altiva e bem acabada resposta. “Nasci em Póvoa do Varzim”, e ponto final. Há nomes que encantam pelo inusitado do possível significado, como São Sebastião das Três Orelhas, onde vivem minhas amigas Denise e Cecilia, outros nomes encantam pela sonoridade, é o caso de Toque Toque Grande, ou por informar alguma característica do local, que é o caso de Butantã, toponímia Tupi-Guarani que significa; lugar onde venta muito. Existem nomes que encantam pela sonoridade como, Freguesa do Ó – cantada por Gilberto Gil – outros que relatam a sua história, como a Estrada da Boiada, e outros que sugerem alguma característica, como a Praça do Por do Sol, o Beco do Batman, a Ladeira da Memória, o Largo do Piques. São muitos nomes ao nosso redor, e cada qual nos instiga a imaginar a sua origem. Em Piracicaba – e outras cidades do interior – existe a Rua da Boa Morte, que certamente vai morrer no cemitério. Ruas com nomes de flores abundam na Vila Madalena em São Paulo, como Margarida e Girassol, e a Rua Três Rios existe no Bom Retiro, o bairro central de São Paulo, onde eu nasci, local de confluência da graciosa rua da Graça e da Ribeiro de Lima. Se três rios ali existiram, devem estar enterrados sob o asfalto do bairro. Aliás, Bom Retiro é revelador da função que o local já exerceu, um local de sítios de recreio antes de tornar-se local das olarias situadas `a margem do Rio Tietê, e depois virar o bairro industrial, e hoje um local de comércio desmedido.
Além das toponímias, os nomes dos edifícios paulistanos também são reveladores. Na cidade de São Paulo percebe-se um modismo na escolha dos nomes, que revelam o possível ordenamento cronológico. Assim são os edifícios com o nome das matriarcas, que são comuns em Higienópolis, e em Santa Cecilia. É o caso dos edifícios Dona Carolina, Dona Veridiana cujos nomes informam que ali existiu uma mansão que não sobreviveu `a derrocada da bolsa em 1929 e do café. As famílias venderam as suas fazendas e puseram abaixo as mansões para saldar as dívidas. Ficou o nome da falecida. Nomes tupi guaranis representam outro período, como Indaiá, Paraty e Itaúna. Outros são atemporais, como Edifício Olimpo, uma construção da década de 60 no bairro de Santa Cecilia e o edifício Pirâmides bem no início da Alameda Santos. Em tempo mais recente, premidos pela exigência do mercado, os edifícios passaram a receber nomes em inglês, sugerindo a criatividade pífia dos marqueteiros das incorporadoras. Alguém acreditou que chamar um edifício de Open View, como é o caso da minha morada, é mais bonito do que Bela Vista, ou Vista Ampla. Pobreza de espírito das mentes colonizadas, que cultivam os lugares sem significado. Assim são os nomes como Market Place, Pinheiros Office, e Office Space. São nomes que não nos dizem nada. Um ou outro caso anômalo sugere que existe salvação para o mundo, como o Edifício Stan Gets em Pinheiros. Passo por lá a até ouço o sax bem tocado.
Acho que os nomes surgiram para facilitar a comunicação, mas as transformações impostas pelo mercado passam como um trator pelos significados íntimos que os nomes poderiam sugerir. Existem reações isoladas, como a de uma empresa de produção florestal, que contratou um historiador para redescobrir os nomes dos locais nas propriedades agrícolas por ela administrada. Saber que a curva do rio se chama toca da onça, podia evitar problemas para os frequentadores eventuais. Na maior parte das vezes, em clara ação de desobediência coletiva, os moradores preferem manter os nomes antigos em desalinho com os registros formais. Se visitarmos a cidade de Sapucaí Mirim, é bom que se saiba que ela é chamada carinhosamente pelos locais pelo nome de Aparecidinha e que Luiz Eduardo Magalhães, na Bahia, hoje município produtor de algodão e soja, já foi Mimoso do Oeste, aliás, muito melhor, mais sonoro e prenhe de significados. É bom saber que e Chapada Gaúcha fica no norte de Minas Gerais, ao lado do Parque Grande Sertão Veredas, onde foram parar os gaúchos vindo do município de Espumoso, em busca de vida melhor.
Nomes podem ser belos. Conheci uma moça em um arraial no interior de Minas Gerais que atende pelo nome de Última. O seu pai explicou tudo ao escolher o nome. Respiro fundo quando passo pelo Largo do Café e me encho de alegria quando caminho pelo Jardim da Luz, local onde eu brinquei boa parte da minha infância, e onde resiste um coreto dos mais bonitos que conheço. Os locais são depositários de história vivida por muitos, que anônimos ou não, ali deixaram as suas marcas. Apagá-las é como limpar a memória afetiva e coletiva, dando lugar a um mundo mais árido.
Por falar em memória afetiva, ainda vou conhecer Póvoa do Varzim. O sitio oficial da cidade informa sobre a origem do nome. Diz assim: no início era Terra de Varzim, ignoto senhor que a possuiu, em tempo não menos ignoto. Muito esclarecedor.